Carta de Princípios

INTRODUÇÃO

“Não haveria cultura nem história sem inovação, sem
criatividade, sem curiosidade, sem liberdade sendo exercida,
ou sem liberdade pela qual, sendo negada, se luta.
Não haveria cultura nem história sem risco, assumido ou não,
quer dizer, risco de que o sujeito que o corre se acha mais ou
menos consciente. Posso não saber agora que riscos corro,
mas sei que, como presença no mundo, corro risco.
É que o risco é um ingrediente necessário à mobilidade
sem a qual não há cultura nem história.”

Paulo Freire

 (Citação na obra “ Prática pedagógica no Ensino Médio: a 
possibilidade de inovação  na perspectiva da emancipação.
 São Luis/MA: EDUFMA, 2009, 94p.)




O Colégio Santos Dumont se vê e se define como parte de um movimento de transformação da escola, como definem bem os projetos das escolas democráticas e inovadoras. Transformar, no caso, significa ir além da forma presente, mudando o paradigma (sem, no entanto, perder a sua natureza essencial de ambiente formal de aprendizagem).

Dessa forma, a mudança de paradigma significa buscar mudanças sistêmicas, não parciais, ou seja, que não afetem apenas um dos componentes da instituição escolar, mas todos os elementos que compõem a escola.

Na verdade, é como se fosse uma reescola, uma reinvenção da escola que se expressa em suas ações como escola cidadã.

Assim, considerando que a sociedade e o sistema educacional se estruturam a partir da questão do trabalho, pois este é a base material da existência humana, na medida em que os homens e mulheres produzem sua própria subsistência, a partir de suas necessidades. Considerando que ao nos comprometermos, em nosso processo educativo, com uma formação ético-política vislumbrando a construção de ‘um destino coletivo que potenciem os valores humanistas’, optamos por uma escola democrática, na qual são erradicadas as práticas hierarquizadas, autoritárias e por demais burocráticas.

Dentro desse contexto, buscamos inspiração no processo teórico-educacional da Escola da Ponte de Portugal, através da obra do Professor José Pacheco, com todo o seu aparato de escola inteiramente democrática, em que tudo que é convencional como, agrupamentos de educandos em séries ou divididos por faixa etária, não seja adotado como base da estrutura pedagógica da escola.

Sendo assim, as práticas organizacionais e relacionais da Escola,  refletirão também os valores matriciais que inspiram e orientam o Projeto LILL( LIBERDADE, LUTA E LEALDADE), a saber, os valores da Honestidade, da Autonomia, da Responsabilidade, da Afetividade, da Solidariedade e do Respeito, Tolerncia, Paciência e todos os outros cuja significação se agrega a estes como no caso da palavra LUTA, um dos “Ls” de LILL, como sinônimo de perseverança, não desistência, coragem e determinação.

Destacamos que os princípios da gestão e governança democráticas serão os elementos basilares na Organização do trabalho  do Colégio Santos Dumont - Projeto LILL.
São mudanças sistêmicas, não incrementais que abrangem currículo, metodologia e avaliação, além de uma nova visão de educação, da aprendizagem e do papel da autonomia na aprendizagem. Em consequência, a mudança também das funções dos educadores e de todos os profissionais que atuam na escola.


HONESTIDADE E LEALDADE

“Por mais que você batalhe e vença com esforço, se você não conseguiu com honestidade você não conseguiu nada.” 

Claudiney Ribeiro

“A felicidade consiste em ações perfeitamente conformes à virtude, e entendemos por virtude não a virtude relativa, mas a virtude absoluta. Entendemos por virtude relativa a que diz respeito às coisas necessárias e por virtude absoluta a que tem por finalidade a beleza e a honestidade.” (Aristóteles)

Diante desses dois pensamentos, entendemos que na base de todos os valores humanos, a honestidade representa a raiz forte de uma grande árvore ou a rocha sobre a qual foi construída uma casa.

Sem honestidade não há nobreza de caráter, dignidade humana. Da honestidade é que vem a lealdade, a fidelidade a princípios éticos e morais.

“Diz a sabedoria popular que “cesteiro que faz um cesto faz um cento”. Quem pratica a fraude numa prova, não a praticará no exercício das suas funções? Temos razões para nos preocupar com a degenerescência da honestidade em pessoas encarregadas de fazer justiça, como em qualquer atividade humana” (José Pacheco in 'Dicionário de Valores')


AUTONOMIA

Autonomia significa auto-governância: ter o direito de criar seu próprio caminho. Autonomia pode ser expressa pela capacidade de um grupo se articular com independência, se autorregular, definindo sua própria forma de funcionamento, dias e formas das reuniões, papéis de cada integrante, destino de recursos financeiros, etc.

“A autonomia exprime-se como produto da relação. Não existe autonomia no isolamento, mas relação eu-tu. Conclusão: a autonomia convive com a solidariedade.” (José Pacheco in 'Dicionário de Valores')


RESPONSABILIDADE

Um dever assumido de forma livre leva a responsabilidade de cumpri-lo.

Ser responsável é ser uma pessoa de palavra que conta com a confiança e credibilidade por parte dos outros porque tanto suas palavras como suas ações são a melhor marca de seu caráter. Para uma pessoa responsável, a promessa tem grande valor. Ao contrário, uma pessoa pouco responsável é aquela que promete coisas que não se preocupa em cumprir.


AFETIVIDADE

"Educar a mente sem educar o coração, não é educação" (Aristóteles)

Muito se tem discutido sobre o valor do afeto na aprendizagem. É verdadeiramente a mola mestra para se estabelecer uma relação significativa entre o educador e o educando.

Para Pestalozzi, a educação está presente em todas as manifestações da vida humana, que ocorrem através de três capacidades do ser: a mente, o coração e a mão. Ou, em outras palavras, a vida intelectual, a vida afetiva e a vida prática ou técnica, as quais devem ser desenvolvidas de forma integral e harmônica.

Torna-se, pois, essencial manisfestar o afeto em todas as situações de aprendizagem, para que esta incluaem seus movimentos a aprendizagem de valores como : paciência, humildade, benevolência, fraternidade, honestidade, solidariedade, tolerância, operosidade, ou seja, o conjunto das virtudes que fazem o homem moral.


SOLIDARIEDADE

Certa vez li essa definição de solidariedade que achei perfeita: “Solidariedade é o amor em movimento”.

O grande ser humano Nelson Mandela fez esta observação : é preciso reinstalar a Solidariedade Humana. Os valores da solidariedade humana que outrora estimularam a nossa demanda de uma sociedade humana parecem ter sido substituídos, ou estar ameaçados, por um materialismo grosseiro e a procura de fins sociais de gratificação instantânea. Um dos desafios do nosso tempo, sem ser beato ou moralista, é reinstalar na consciência do nosso povo esse sentido de solidariedade humana, de estarmos no mundo uns para os outros, e por causa e por meio dos outros. (Nelson Mandela, in 'Walk to Freedom')

Educar a solidariedade na solidariedade em nossas escolas,  de modo que se instale uma convivência sem comparações ou concorrências, respeitando as diferenças, é voltar-se para esta reinstalação no mundo de um sentimento que está perdido  que é o de um irmão para outro irmão.


RESPEITO

Quando se respeita alguém não queremos forçar a sua alma sem o seu consentimento.

Este pensamento da filósofa Simone de Beauvoir nos fala bem de perto que o respeito jamais existe se imposto.

“Respeito gera respeito, portanto, quando agimos dessa forma levamos o outro a fazer o mesmo e é assim que construímos o respeito mútuo. É preciso se respeitar. Respeito é o valor que nos move a tratar o outro com atenção, consideração e importância. Quem não se respeita, não inspira o respeito do outro. Respeito é fundamental em todas as nossas relações e em todos os momentos.” (Alunos do 7º ano do Colégio Interativo/Volta Redonda/RJ).

Em nosso colégio Santos Dumont, toda vez que alguém foge ao respeito por outrem, o caso é debatido e refletido em assembleias que funcionam como forma de redenção dos atos desrespeitosos.


PACIÊNCIA E TOLERÂNCIA

Estes valores sempre andam juntos. A Paciência, que desenvolve a capacidade de esperar, de acreditar em mudanças, em não desistir colocando limites ás expectativas, exige, por sua vez, uma dose de tolerância.

Afirmava o grande estadista Ghandi: “Perder a paciência é perder a batalha”.

A pessoa que planeja um programa de ação com calma e com prudência, sabe correr atrás dos seus objetivos sem alardear e nunca desiste.

A falta de paciência torna a pessoa intolerante. Não sabe ouvir, está sempre irritada e apressada. A prática da tolerância vai treinando a paciência. (adaptação das palavras de Gandhi)


CONCLUSÃO


Por meio desta Carta de Princípios, o Colégio Santos dumont, em sua estrutura de uma educação alternativa, qu quebra os laços com a educação tradicional, se compromete a:
  • criar laços e espaços de liberdade e autonomia entre pessoas;
  • estabelecer pontes de cooperação e comunicação entre todos, visando a construção de uma escola verdadeiramente democrática;
  • promover a troca de saberes, facilitar o acesso de informações e conhecimentos essenciais para a vida individual e coletiva;
  • afinar e exercitar  a solidariedade, promover diálogos e  crítica inteligente de tal modo que "o outro" se sinta valorizado e respeitado como pessoa;  
  • basear-se em todas as ações na “Carta da Terra” de Leonardo Boff, particularmente nos princípios que levam a uma vida sustentável, na própria expressão do autor.

Princípios resumidos e adaptados, extraídos da Carta da Terra:
  • Respeitar a Terra e a vida em toda a sua diversidade;
  • Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor;
  • Construir a comunidade escolar com ações democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas;
  • Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução;
  • Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca aberta e a ampla aplicação do conhecimento adquirido;
  • Garantir que as atividades em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma equitativa e sustentável;
  • Afirmar a igualdade e a equidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas;
  • Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a viver em ambiente natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, concedendo especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias;
  • Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável;
  • Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração;
  • Promover uma cultura de tolerância, não-violência e paz.